
Antonio Brasileiro
| "Figura referencial entre os nomes
surgidos a partir doa anos 60, Antonio Brasileiro,
reconhecido nacionalmente pela sua produção poética,
estreou na ficção com o romance Caronte, tendo também
uma atuação destacada como agitador cultural,
responsável por iniciativas como as revistas Serial e
Hera e as Edições Cordel, a que se deve boa parete de
publicações de jovens autores baianos." "O que faz o encanto da poesia de Antonio Brasileiro é ser tão intensamente lírica e ao mesmo tempo tão completamente ligada aos acontecimentos exteriores. Dir-se-ia que a voz do poeta, filtrada pelo sentimento do eu lírico, amplia-se à medida que encontra ressonância no sentimento do mundo." Por Myriam Fraga, em prefácio do livro Antologia Poética - Antonio Brasileiro |
Para nosso barco pequeno, chegaram-se tão grandes mares.
Ah, tão parcos são os sonhos ante o nada, são as vozes que se perdem entre um sim e a imensidade.(E nossos nomes inscritos no imenso amálgama da alma!)Como sondar horizontes em busca de ilha ou barco? Que certezas dão caminhos que, águas, perdem-se em águas?Pequeno barco, imenso mar. Imenso mar.
TIQUES Pode o amor com sua falta envolver-me em amarguras - pode uma neurose obscura cutucar-me, na psique, algo que (e quem sabe?) não descubro - pode haver doenças, desastres, desquites, dividas, desavenças - pode ser que tudo mude ou permaneça a mesma sem-graça cotidiana existência estapafúrdia - pode chover canivetes ou estrôncio, que é mais chique - pode haver quem não tenha tiques, faça, impávido, bhakti-yoga: o fato é que não me encanto nem me espanto nem corro às léguas. Fico quieto no meu canto. E vão à pura merda ids e egos.
Quero partir, não parto. Quero gritar, não grito. Canso de mim, me agasto. Para onde vou, é ali. Se me procuro, que acho? Não parto. Por que não parto? Não grito. Por que não grito? O beco - mas, e este beco? E esta dura rua em círculos? Escreve, poeta. Escreve! (A vida - aprende - não é breve.)
SÍSIFO E A LÁGRIMA Há coisas que não decifro. E nem por isso sofro. Estar no mundo é que é o difícil. O sol é uma bola imensa. Eu, pó de mésons. Em torno a mim nenhuma só tormenta. A tarde é linda, pássaros chilreiam. Na radiola uma sonata para violino de Bach.
CONTEMPLAÇÃO DA NUVEM A vida é a contemplação daquela nuvem. E o mundo uma forma de passar, que inventamos para não ver que o mundo não é o mundo, mas uma nuvem passando. E uma nuvem passando ensina-nos mais coisas que cem pássaros mil livros um milhão de homens. A vida é a contemplação daquela nuvem. E o mundo uma forma de passar, que inventamos para não ver que o mundo não é o mundo, mas uma nuvem. Passando.
PARTIDA Partias gravemente; meus olhos te seguiam. Bem sei que se voltasses não mais te quereria. Entanto, ao partires, meu peito arfava um pouco. Talvez houvesse um cisco no canto do meu olho.
COISAS ÍNTIMAS Trouxe-te flores e não estavas. Que se há de fazer com ternuras?
ARTE POÉTICA Meus versos são da pura essência dos poemas inessenciais. Nada dizem de verídico não querem nada explicar. Não narram o clamor dos peitos não encaram a dor do mundo. Se por vezes falam alto é por puro gozo, júbilo: humor que brota de dentro como se movem os astros. Eles, meus versos, são pura floração de irresponsáveis flores nascidas nos mangues, por nascer - mas multicores, lindas, não importa que os homens as conheçam ou não as conheçam.
Compor um homem com suas tramas, seus dramas, teogonias, gramáticas, soluços; compor um homem, do orvalho matinal compor um homem, do céu cheio de estrelas, do mistério do homem compor o homem; compor um homem da criança que há no homem, do homem a adivinhar-se em antiquíssimas retinas; compor um homem com seus longos soluços, gramáticas, teogonias - e recriá-lo perante os outros homens.
Quero fazer um poema reto. Sem emoções - que essas nos embaçam. Sem sutilezas semânticas ou glaxúrdias gramáticas. Quero fazer um poema simples, sem sentido. (Que o essencial não tem sentido.) Quero escrever como se uma árvore soubesse olhar as nuvens: um poema que só por existir se explique e me explique.